Lourival Cuquinha | – Dos meus comunistas cuido eu. (Roberto Marinho)

de 10 de abril a 09 de junho

A Baró Galeria Jardins apresenta a partir desta terça-feira, dia 10 de abril, a exposição  – Dos meus comunistas, cuido eu. (Roberto Marinho), individual do artista Lourival Cuquinha. A exposição é composta por trabalhos inéditos em que o artista propõe reflexão acerca da estrutura fundiária brasileira, suas raízes e seus desdobramentos na política contemporânea. A mostra é a segunda de uma série de três exposições – a primeira foi OrdeMha, realizada na Baró Galeria, em 2016. O conexão entre as mostras realiza-se pela presença do trabalho Golpe Profundo, uma faixa pintada nas paredes da galeria em uma escala de cores; do verde bandeira ao preto petróleo.

Em Apólice do Apocalipse, um dos trabalhos presentes na mostra, Cuquinha expõe uma transcrição da carta de Pero Vaz de Caminha a grilos vivos e às substâncias expelidas pelos insetos.  A esse procedimento, comumente empregado por latifundiários, chamamos de grilagem. A ação dos grilos dá aparência antiga a documentos de propriedade de terras apropriadas ilegalmente[1] com o objetivo de legitimar a posse.  A grilagem é reveladora da estrutura desigual de acesso à terra no Brasil, no qual o latifúndio e as elites se apoiam e se utilizam do Estado e dos mecanismos legais em seu benefício.

Na carta de Caminha transcrita por Cuquinha, o colonizador enuncia, em 1º de maio de 1500, suas primeiras impressões sobre aquele território que viria a ser chamado de Brasil. Em um mobiliário quase barroco – e que remete às extravagâncias da aristocracia portuguesa – feito de vidro e madeira, o texto da carta é exposto e, através do vidro, conseguimos ver os grilos vivos envelhecendo-o, alterando-o, devorando-o. Por meio de sua degradação, o documento é, ao mesmo tempo, legitimado, pois assume caráter de antigo, e destruído.

Esse trabalho nos remete ao que poderia ser a primeira grilagem ocorrida no território que daria origem ao país – o ‘descobrimento’ do território pelos portugueses. A carta de Caminha enuncia uma história de dominação e espoliação da população indígena que já habitava o território. Os portugueses aparecem na história oficial como heróis e desbravadores de mares, tal que a real chacina contra a população local é apagada da historiografia. Cuquinha aponta para o momento em que o conquistador europeu se apropria arbitrária e depois violentamente das terras brasileiras e, a partir daí, começa uma história brasileira, na qual se inscrevem relações de dominação, desigualdade e espoliação. Nos outros trabalhos presentes na mostra, na bandeira Brasil República Vendida Financial Art Project  ou no vídeo Sócios (ou Chora Geddel), o artista parece nos colocar, como espectadores, diante dessas relações de espoliação que permeiam a política contemporânea.

O título escolhido por Cuquinha é ainda mais curioso: a frase de Roberto Marinho, dita em 1964 quando, logo após o golpe militar, um dos ministros de Castelo Branco pediu que ele entregasse uma lista de seus empregados que tivessem ligações com a esquerda e o comunismo, o editor-diretor-proprietário, Roberto Marinho, então enunciou tal frase: ‘dos meus comunistas, cuido eu’.  Ao escolher essa frase, Lourival Cuquinha parece nos lembrar, mais uma vez que, na história do Brasil, o Estado e o poder público subordinam-se, muitas vezes, ao poder privado e às grandes corporações. O Estado Brasileiro, assim como quando foi responsável por promulgar a Lei de Terras, responde e atua em conjunto com as elites, mantendo a estrutura desigual de nosso país.

Além disso, a escolha dessa frase nos remete à história da luta pela terra no Brasil: a luta por uma mudança na estrutura fundiária é imediatamente identificada como uma luta comunista e, deste modo, algo que o status quo e o autoritarismo querem que seja execrado pela população em geral. Sob a ‘ameaça do comunismo’, ações militares e intervenções foram – e ainda são  – justificadas e a luta de importantes movimentos sociais é desqualificada.

Assim, a história de violência com que se realiza a posse da terra no Brasil e os mecanismos legais que legitimam a desigualdade se inscrevem no trabalho de Lourival Cuquinha. A ficção narrativa sobre o ‘descobrimento do Brasil’ aliada à referência a métodos contemporâneos de expropriação tornam o trabalho do artista uma importante ponto de reflexão para pensar nossa situação nos dias atuais.


[1] José de Souza Martins, importante sociólogo brasileiro, sintetiza o regime e a distribuição de terras em nosso país: enquanto havia trabalho escravo no Brasil, não havia uma Lei de Terras que a inserisse como um bem no mercado. A partir do momento em que o trabalho se torna ‘livre’ – com a proibição inicial do tráfico de escravos e posterior abolição deste – o acesso a terra se vê mediada pela propriedade da mesma, regulada pelo Estado.  Assim, todas as terras brasileiras, que antes eram propriedade da Coroa e exploradas em regime de concessão, passam a fazer parte de um mercado imobiliário ainda incipiente, mas que já beneficia uma parcela pequena da população. A partir da Lei de Terras, teoricamente, todas as aquisições de terra no Brasil devem ser datadas inicialmente de um documento de 1850.

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Baró Galeria presents – Dos meus comunistas, cuido eu. (Roberto Marinho) [-I’ll take care of my communists. (Roberto Marinho)], solo exhibition by Lourival Cuquinha which will debut some never seen before artworks that proposes a reflection on the Brazilian land structure, its roots and its unfolding in contemporary politics. The show is the second of a series of three exhibitions – the first being ORdeMha, which also took place at Baró in 2016. The link between the exhibitions is established by the presence of Golpe Profundo, which consists of a dark green to Petroleum black gradient banner painted along the gallery’s walls.

In Apocalypse Policy, one of the works of the exhibition, Cuquinha offers the transcription of Pero Vaz de Caminha’s letter to live crickets and exposes the document to the substances expelled by insects. Commonly employed by landowners, this procedure is called grilagem (“cricketing”). The action of the crickets on the paper gives an old appearance to illegally appropriated land ownership documents in order to legitimize possession. Grilagem is revealing of the unequal structure of access to land in Brazil, where land owners and the elites support and use the state and legal mechanisms to their benefit.

In Caminha’s letter transcribed by Cuquinha, the colonizer enunciated on May 1st, 1500 his first impressions of the territory that would come to be called Brazil. In an almost baroque furniture, which refers to the extravagances of the Portuguese aristocracy made of glass and wood, the letter is exposed and through the glass one can see the live crickets aging, altering and, devouring the document. Through its degradation, the document is at the same time legitimized since it assumes antique characteristics and destroyed.

This work reminds us of what could have been the first grilagem in the territory that would give rise to the country – the ‘discovery’ of the land by the Portuguese. Caminha’s letter enunciates a history of domination and plundering of the indigenous population that already inhabited the territory. The Portuguese appear in history as heroes and glorious pathfinders while the real slaughter against the local population is erased from historiography. Cuquinha points to the moment in which the European conqueror appropriates arbitrarily and then violently of Brazilian lands and from that point onwards begins a Brazilian history which is inscribed with relations of domination, inequality and plundering. In the works Brasil República Vendida Financial Art Project  and Sócios (or Chora Geddel), the artist seems to put us as spectators before these relations of plundering that permeate contemporary politics.

The title chosen by Cuquinha is even more curious: Roberto Marinho’s 1964 statement when shortly after the military coup one of Castelo Branco’s ministers asked him to hand over a list of his employees who had connections with the left wing and Communism, the editor-director-owner, Roberto Marinho then stated: “I’ll take care of my communists.” In choosing this phrase, Lourival Cuquinha seems to remind us once again that in the history of Brazil the state and public power are often subordinated to private power and to large corporations. The Brazilian State, as well as when it was responsible for promulgating the Land Law, responds and acts together with the elites, maintaining the unequal structure of the country.

Moreover, the choice of this phrase takes us back to the history of the struggle for land in Brazil: the struggle for a change in the land structure is immediately identified as a communist struggle and, thus, something that the status quo and authoritarianism pushes forward to be condemned by the general population. Under the ‘threat of communism’, military actions and interventions were – and still are – justified and the struggle of important social movements is disqualified.

Thus, the history of violence with which land tenure takes place in Brazil and the legal mechanisms that legitimize inequality are part of the work of Lourival Cuquinha. A narrative fiction about the ‘discovery of Brazil’ combined with the reference to contemporary methods of expropriation make the artist’s work an important point of reflection to consider our current national situation.

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“Dos meus comunistas cuido eu.” – Roberto Marinho @ Baró Galeria

Abertura / Opening: 10/04 – 18h.

Período expositivo / Visitation Period:  10/04 – 09/06

Horário de funcionamento / Visiting times: segundas / mondays -  14h00 – 19h00;  terça-feira a sábado / tuesdays – saturdays – 10h00 – 19h00; sábado / saturday – 11h – 19h

Rua da Consolação, 3417 – Jardins – São Paulo – SP

Entrada livre/ franca / Free Admittance 

 

 

 

 

PRESS RELEASE

Lourival-Cuquinha-Dos-meus-comuistas-cuido-eu-final.pdf

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