Renata Padovan // Vão

05/02/11 a 19/03/11

PARA MOVER MONTANHAS // Marisa Flórido

Entre os desenhos do mundo e sua concretude há, sobretudo, um vão, uma distância, uma inadequação. Horizontes, fronteiras, meridianos tentam – em vão – contorná-lo e designá-lo. Convenções buscam ancorar fugas e partidas, estabelecer laços solidários entre o homem e os espaços por onde ele se move. Mapas riscam, na carne do mundo, tanto sua totalidade quanto a fragmentação e partilha de seu solo. Coordenadas alinham a terra e seus ciclos à coreografia das altas esferas, à música cósmica e surda que delas talvez ecoe. Paisagens supõem atar, por uma linha, os desígnios do horizonte à inconstância movediça dos solos, o confinamento da matéria à demasia do espírito.

Mas é nesse vão, nessa inadequação, que a imaginação trabalha e a arte sonha mundos além de suas bordas. São linhas, horizontes, fronteiras, trilhas que Renata Padovan redesenha, fragmenta, transpõe, em paisagens e cartografias das dispersões. São obras que começam nos extremos do mundo: arte que encontra sua possibilidade apenas ali onde convenções, horizontes e coordenadas se esgotam. Ali onde as montanhas se movem, os horizontes flutuam suspensos, os conflitos silenciam e a grama cresce indiferente ao ritmo de nossas deambulações. Onde, dispersos e errantes em um universo sem centro, absortos em nossa inelutável solidão, a palavra fraturada é capaz de se converter no canto melancólico das gaivotas.

Fronteiras são limites abstratos na pele do mundo traçados por conflitos na carne do homem.  Se mapas sistematizam em uma superfície bidimensional as informações recolhidas sobre um espaço, se revelam visões de uma época, também possuem uma dimensão temporal: a dimensão das disputas por territórios, da história dos poderes e dos domínios, das reservas e das exclusões. Fronteiras pensam circunscrever, nos fragmentos, identidades, línguas, culturas. Proteger das contaminações exteriores. Resguardar do outro, desse invasor, desse estrangeiro aos reinos que nos são familiares.

Mas se mapas  são arquivos de informações, são também a reserva dos sonhos, a escrita dos viajantes, a imaginação dos navegantes. Por isso o fascínio que os mapas exercem nos artistas, essa espécie de corsários. Nas cartografias dos artistas, saqueiam-se as geografias para perder-se em seus devaneios, para abrir mundos além. Por isso Renata se apropria de mapas e inverte seu procedimento (“Arquivo- E”): se as fronteiras européias fragmentam a extensão fluida de um solo que deveria acolher a todos, mais vale fraturar as fronteiras; se mapas são arquivos de visões de mundo, trata-se então de arquivar as soberanias que as fronteiras representam, como relicários do passado, calar déspotas e tiranos no silêncio do feltro e das gavetas.  Devolver às margens, suas porosidades, as distâncias do centro  que insiste em perseguir a Origem, a Loba mãe. Devolver a ousadia de Remo, que atravessou a fronteira e foi assassinado pelo irmão. Na Roma extraviada, as margens demonstram que metamorfoses e contaminações ocorrem de ambos os lados.

Se as fronteiras conservam o paradoxo das margens, as ilhas guardam o imaginário da (re)criação e, as montanhas, o domínio das distâncias e das elevações. Em “Island”, a artista redesenha insistentemente os contornos da Islândia em um livro de papéis translúcidos. Superpõe simbologias: a ilha é um mundo sem o risco de contágios, um mundo que se fundamenta em si mesmo, absoluto e supremo. Origem perfeita e imaculada (como Atlântida) ou destino das recriações (como a ilha de Morus), a ilha é a promessa dos recomeços, mas é também a dor e a solidão do isolamento e da deriva (Crusoé, Alcatraz, Guantánamo). A existência sem conexão, como um fragmento disperso e náufrago.

E o fragmento é o limite da representação, é a irrupção do irrepresentável, alusão ao que nos excede, mas que interrompe as simbolizações no lugar e no instante de sua aparição. É a esse excedente sem contornos que a existência se compara e se expõe.  Se os horizontes não são fixos, eles flutuam na suspensão que as paisagens encerram. A arte é então capaz de mover montanhas, transportar os afetos que as inalcançáveis montanhas  (se são no Canadá, não importa) imprimem em nossa sensibilidade.

Transpor “fragmentos” de seu skyline para doá-los aos céus de outro. “Não se orienta na paisagem”, como disse Gilles Tiberghian  [ Finis terrea, p.144]. “A relação que estabelecemos com ela não é da ordem métrica, mas musical”. Como fizera com os horizontes e as fronteiras, em “Void”, Renata Padovan fragmenta a linguagem (esse mapa da voz e da comunicação), ao ponto do verso tornar-se apenas som, o grito triste e crepuscular das gaivotas. Suspensos no ar, somos lançados no exílio (ex solum) de toda existência, na falta de solo de toda vida. Sem marcação espacial, é o ritmo e o som do poema fragmentado que nos informam do vazio e do silêncio, da multidão e da solidão que nos habitam  Que afirmam, no canto incompreensível de pássaros que não existem, a possibilidade dos sonhos, o desejo da arte em mover e doar montanhas.

 

I had a dream, I was in a void, floating. Inside of me, there were a million voices, and they cried, like seagulls

 

 

TO MOVE MOUNTAINS //  Marisa Flórido

Between the drawings of the world and its concreteness there is, above all, a gap, a distance, a lack of fit. Horizons, borders and meridians try – in vain – to encompass it, to designate it. Conventions seek to anchor escapes and departures, to establish solidary bonds between man and the spaces through which he moves. Maps scratch, on the world’s flesh, both its wholeness as well as the fragmentation and divisions of its soil. Coordinates align the earth and its cycles with the choreography of the celestial spheres, to the cosmic, unheard music which perhaps echoes from them. By means of a line, landscapes aim to bind the designs of the horizon to the slippery inconstancy of the soils, the confinement of matter to the excess of the spirit.

Yet it is this gap, this lack of fit, that the imagination works with; and art dreams of worlds beyond its limits. Lines, horizons, borders, and paths are what Renata Padovan redraws, fragments and transposes, in landscapes and cartographies of the scatterings. They are artworks that begin at the ends of the world: art that finds its possibility only there, where conventions, horizons and coordinates are exhausted. There, where the mountains move, the horizons float suspended, the conflicts become silent and the grass grows indifferent to the pace of our roaming footsteps. Where, scattered and nomadic in a centerless universe, absorbed in our inescapable solitude, the fractured word can be converted into the melancholic song of the seagulls.

Borders are abstract limits on the skin of the world traced by conflicts in the flesh of man. If maps are a bidimensional systematization of information collected concerning a space, they reveal visions of an era, and also possess a temporal dimension: the dimension of the disputes for territories, of the history of powers and realms, of reserves and exclusions. Borders are meant to circumscribe, within the fragments, identities, languages and cultures. To protect from contaminations from the outside. To shut ourselves off from the other, this invader, this foreigner in the realms with which we are familiar.

But if maps are archives of information, they are also the reservoir of dreams, the writing of the travelers, the imagination of the navigators. This explains the fascination that maps hold for artists, those corsairs of sorts. In making their cartographies, the artists plunder the geographies to become lost in their driftings, to open worlds beyond. This is why Renata appropriates maps and inverts their procedure (Arquivo- E): if the European borders fragment the fluid extension of a land that should shelter everyone, fracturing the borders becomes more worthwhile; if maps are archives of worldviews, it’s a matter of archiving the sovereignties that the borders represent, like relics from the past, muting despots and tyrants in the silence of felt-lined drawers. Restoring the porosities to the fringes, the distances from the center that insists on pursuing the Origin, the mother She-Wolf. A return to the boldness of Remus, who crossed the border and was murdered by his brother. In Rome astray, the fringes demonstrate that metamorphoses and contaminations occur on both sides.

If the borders preserve the paradox of the fringes, the islands retain the image repertoire of the (re)creation, while the mountains are the domain of distances and elevations. In Island, the artist insistently redraws the outlines of Iceland in a book of translucent papers. She overlays symbolisms: the island is a world without any risk of contagion, a world founded on itself, absolute and supreme. A perfect and immaculate origin (like Atlantis) or the destiny of the re-creations (like More’s island), the island is the promise of the rebeginnings, but it is also the pain and loneliness of isolation and drifting (Crusoe, Alcatraz, Guantánamo). Existence without connection, like a scattered and castaway fragment.

And the fragment is the limit of representation, it is the irruption of the unrepresentable, an allusion to what surpasses us, but which interrupts the symbolizations at the place and instant of their appearance. This boundaryless surpassing is what existence is compared and exposed to. If the horizons are not fixed, they float in the suspension brought about by the landscapes. Art is therefore able to move mountains, to transpose the feelings that the unreachable mountains (if they are in Canada, it doesn’t matter) impress on our sensibility. To transpose “fragments” of their skyline to bestow them on the skies of another.

“One is not oriented in the landscape,” as Gilles Tiberghien states [Finis terrae, p. 144]. “The relationship we establish with it is not of a metric but rather a musical sort.” As she did with the horizons and the borders, in Void Renata Padovan fragments language (that map of voice and communication), to the point where verse becomes only sound, the sad and fading cry of the seagulls. Suspended in the air, we are thrown into exile (ex solum) from all existence, away from the soil, the supporter of all life. Without spatial delimiting, it is the fragmented poem’s rhythm and sound that tells us of the void and the silence, of the multitude and the solitude that lie within us. Which affirm, in the incomprehensible song of the inexistent birds, the possibility of dreams, the desire of art to move – and bestow – mountains.

 

I had a dream, I was in a void, floating. Inside of me, there were a million voices, and they cried, like seagulls.

 


 

 

 



OBRAS

Vista da exposição // Vão // Renata Padovan

Instalação composta por linhas de aço inox //

Vista da exposição // Vão // Renata Padovan

Vista da exposição // Vão // Renata Padovan

Fotografia por Clarissa Ximenes

Vista da exposição // Vão // Renata Padovan

Fotografia por Clarissa Ximenes

Vista da exposição // Vão // Renata Padovan

Fotografia por Clarissa Ximenes

Vista da exposição // Vão // Renata Padovan

Fotografia por Clarissa Ximenes