CAMPO MINADO l No Martins

Curadoria Hélio Menezes l de 03 de agosto a 14 de setembro

Baró Galeria SP

A Baró tem o prazer de convidar à primeira exposição do artista No Martins na galeria, com curadoria de Hélio Menezes. A abertura será no dia 03 de agosto, das 14h às 19h,
Performance: Em território hostil a partir das 17h.
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Baró is pleased to invite you for the first exhibition at the gallery of artist No Martins with curatorship of Hélio Menezes. The opening will happen on August 03, from 2:00 p.m. to 7:00 p.m.
Performance: Em território hostil at 17h.

Campo Minado

Um campo minado é, por definição, um terreno repleto de armadilhas subterraneamente prontas para machucar, ou mesmo destruir, todos que tentem atravessar uma determinada área. Uma espacialização de aparatos repressivos, artifício de obstrução de passagem, de impedimento de circulação. A expressão também nomeia um jogo popular de computador, cujo funcionamento reproduz a lógica explosiva da tática de guerra: um passo em falso, um descuido, e o lugar que antes parecia seguro, logo se revela um gatilho. O termo serve também de boa metáfora para os territórios segregados da vida social brasileira, repletos de perigos escondidos: para certos corpos, a experiência de atravessar as fronteiras invisíveis que dividem a cidade em CEP, cor e classe, equivale à de atravessar um campo minado. De transitar em espaços nos quais um mero desvio ou desencontro pode acionar conflitos incendiários no dobrar da esquina.

Essa matéria do cotidiano urbano, de um Estado policialesco, uma sociedade desigual, uma vida vigiada e catracalizada, se converte em centro de interesse e experimentação no trabalho de No Martins. Em Campo Minado, o artista paulistano, nascido e residente à zona leste da cidade, apresenta um conjunto de obras que disseca as camadas de um racismo expressamente urbano, no qual o direito elementar de ir e vir é praticado ou restringido de maneira desigual entre negros e brancos, entre periferia e centro.

Com referências autobiográficas e explorando diferentes linguagens – entre pinturas, objetos, vídeos, instalação –, a mostra individual de No Martins traduz e relê temas da ordem do dia, como o encarceramento em massa crescente, a seletividade penal flagrante do sistema judiciário, o racismo estrutural, a violência estatal abusiva e o crescimento do discurso militarista na sociedade brasileira.

A obra que empresta nome à mostra é boa pista para o entendimento do conjunto. Nela, o artista se faz autorretratar de costas em escala humana, posicionado em situação de enquadro. Não é dado ao observador ver seu rosto: ao entrar em contato com a obra, somos deslocados a ocupar momentaneamente o lugar da polícia no momento da abordagem, fitando-o como o veria um agente de segurança pública. Somos, desse modo, como que convocados a entendermo-nos parte corresponsável pela cena que se configura à frente – violenta, mas absolutamente cotidiana para “indivíduos fora do padrão” como o artista: negro, jovem, periferizado.

A pintura horizontal em pedaços assimétricos de lona, cores marcantes e luminosas, a exploração de signos distintivos e elementos alegóricos (placas proibitivas de trânsito, câmeras de vigilância, letreiros de sinalização), uma expressividade que ecoa um muralismo da arte de rua, reforçam e instauram um ar de urgência, de alerta e gravidade.

O contraste complementar com Sem título, retrato vertical e sensível de um agente policial fardado, mas descalço, complexifica a exploração do tema e desfaz maniqueísmos apressados. Com pés que remetem aos do Mestiço de Portinari, a ausência de sapatos faz ressaltar a pessoa, o sujeito negro por detrás do uniforme, seu mundo interior para além (ou aquém) do ofício. Se recordarmos que na história do Brasil o uso de calçados era interdito aos escravizados, convertendo-se em símbolo distintivo de liberdade, a composição ganha novos contornos.

O trabalho de No Martins não busca conciliação, não está à cata de boas maneiras. Uma linguagem  direta, sem rodeio, em obras como Expediente e 111 dividido por 5, engendra efeitos de denúncia, mas também convite à ação, à saída da letargia diante de um estado de sítio. A busca por uma reflexão sobre o momento presente, o agora, é marca e potência poética de sua produção. Nada parece escapar ao seu olhar: o assassinato de cinco jovens com 111 tiros pela polícia (o número de balas equivale, espantosamente, ao presidiários mortos no massacre do Carandiru); a profissionalização do tráfico de drogas e sua promiscuidade com a política institucional; o estrangulamento de um jovem negro por um golpe de “gravata” dado por um agente de segurança de supermercado. Episódios de violência cotidiana que informam um produção artística deliberadamente politizada, em consonância com movimentos mais contemporâneos da arte preocupados em influir e desejosos de atuar sobre o curso da vida.

Hélio Menezes

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