Dos meus comunistas cuido eu.

10 April - 18 June 2018
A Baró Galeria Jardins apresenta a partir deste sábado, dia 10 de abril, a exposição  – Dos meus comunistas, cuido eu. (Roberto Marinho), individual do artista Lourival Cuquinha. 
A exposição é composta por trabalhos inéditos em que o artista propõe reflexão acerca da estrutura fundiária brasileira, suas raízes e seus desdobramentos na política contemporânea. A mostra é a segunda de uma série de três exposições - a primeira foi OrdeMha, realizada na Baró Galeria, em 2016. O diálogo entre as mostras realiza-se pela presença do trabalho Golpe Profundo, uma faixa pintada nas paredes da galeria em uma escala de cores; do verde bandeira ao preto petróleo. 
 
Em um dos trabalhos presentes na mostra, Cuquinha propõe a grilagem de uma versão, escrita pelo próprio artista, da carta de Pero Vaz de Caminha, em que o colonizador enuncia, em 1º de maio de 1500, suas primeiras impressões sobre aquele território que viria a ser chamado de Brasil. Em um mobiliário quase barroco – e que remete às extravagâncias da aristocracia portuguesa – feito de vidro e madeira, o texto da carta é exposto e, através do vidro, conseguimos ver os grilos vivos envelhecendo-o, alterando-o, devorando-o. Por meio de sua degradação, o documento é, ao mesmo tempo, legitimado, pois assume caráter de antigo, e destruído.  
 
Esse trabalho nos remete ao que poderia ser a primeira grilagem ocorrida no território que daria origem ao país – o ‘descobrimento’ do território pelos portugueses. A carta de Caminha enuncia uma história de dominação e espoliação da população indígena que já habitava o território. Os portugueses aparecem na história oficial como heróis e desbravadores de mares, tal que a real chacina contra a população local é apagada da historiografia. Cuquinha aponta para o momento em que o conquistador europeu se apropria arbitrária e depois violentamente das terras brasileiras e, a partir daí, começa uma história brasileira, na qual se inscrevem relações de dominação, desigualdade e espoliação. Nos outros trabalhos presentes na mostra, na bandeira Brasil República Vendida Financial Art Project  ou no vídeo Sócios ou Chora Geddel, o artista parece nos colocar, como espectadores, diante dessas relações de espoliação que permeiam a política contemporânea. 
 
O título escolhido por Cuquinha é ainda mais curioso: a frase de Roberto Marinho, dita em 1964 quando, logo após o golpe militar, um dos ministros de Castelo Branco pediu que ele entregasse uma lista de seus empregados que tivessem ligações com a esquerda e o comunismo, o editor-diretor-proprietário, Roberto Marinho, então enunciou tal frase: ‘dos meus comunistas, cuido eu’.  Ao escolher essa frase, Lourival Cuquinha parece nos lembrar, mais uma vez que, na história do Brasil, o Estado e o poder público subordinam-se, muitas vezes, ao poder privado e às grandes corporações. O Estado Brasileiro, assim como quando foi responsável por promulgar a Lei de Terras, responde e atua em conjunto com as elites, mantendo a estrutura desigual de nosso país. 
 
Além disso, a escolha dessa frase nos remete à história da luta pela terra no Brasil: a luta por uma mudança na estrutura fundiária é imediatamente identificada como uma luta comunista e, deste modo, algo que o status quo e o autoritarismo querem que seja execrado pela população em geral. Sob a ‘ameaça do comunismo’, ações militares e intervenções foram - e ainda são  - justificadas e a luta de importantes movimentos sociais é desqualificada. 
 
Assim, a história de violência com que se realiza a posse da terra no Brasil e os mecanismos legais que legitimam a desigualdade se inscrevem no trabalho de Lourival Cuquinha. A ficção narrativa sobre o ‘descobrimento do Brasil’ aliada à referência a métodos contemporâneos de expropriação tornam o trabalho do artista uma importante ponto de reflexão para pensar nossa situação nos dias atuais.